quinta-feira, 4 de novembro de 2010

MANINHO E MANINHA - PARTE 2

A ÁGUA ENFEITIÇADA


No dia seguinte, assim que soube que seus enteados haviam sido abandonados à própria sorte, a Bruxa jogou um líquido escuro num riacho e proferiu algumas palavras obscuras, enfeitiçando, dessa forma, todas as águas que corriam pelo bosque. Enquanto a pérfida madrasta descansava sossegada no castelo, as crianças já haviam acordado na choupana e estavam vagando em busca de lenha e água. Seu casebre ficava longe de qualquer fonte de água, então os irmãos já estavam com muita sede quando finalmente encontraram um córrego. Ao debruçar-se para beber, ouviram uma voz que cantava: "Não beba desta água que, outrora, límpida e pura, agora está enfeitiçada e só trará desventura".

Áurea, ao ouvir tais palavras, puxou Florindo, impedindo-o de beber. Continuaram andando até encontrar outro regato. Animadas, as crianças correram a se debruçar sobre a água, quando, novamente, ouviram: "Não beba desta água que, outrora, límpida e pura, agora está enfeitiçada e só trará desventura". E assim foi; a cada cascata, rio, ribeiro, fonte ou nascente que encontravam, ouviam o mesmo verso. Só restou às pobres crianças a resignação de terem de sofrer com a sede. Os dias foram passando e as crianças aliviavam a sede com mirtilos, morangos e outras frutinhas silvestres; seus mantimentos estavam no fim, e o bom servo ainda não havia retornado, como prometera.

Certa noite, quando há muito sua comida já havia acabado e os dois irmãos só ainda não haviam morrido de fome graças às frutinhas que encontravam no bosque, ouviram um bater à porta. Era o fiel servo, carregado de provisões. "Eu trouxe tudo que pude carregar, mas receio que essa tenha sido a última vez que pude vir aqui. A Bruxa desconfia de que ainda estão vivos, e temo que mande alguém me vigiar." De fato, aquela foi a última vez que o viram. Quem sabe o que terá acontecido a ele? Talvez tenha sido mantido prisioneiro pela madrasta; talvez tenha sido morto.

Alguns dias depois, no campo de mirtilos, enquanto Maninha estava entretida em tecer uma cestinha para guardar as frutas silvestres, ouviu a voz que prevenia: "A desventura cairá em breve sobre aquele que beber desta água leve". Assustada, saiu correndo em busca de seu irmãozinho, mas já era tarde. O ainda muito jovem principezinho não soube resistir à tentação e sorvera daquela água cristalina. Áurea chegou em tempo de ver seu irmãozinho sumir e, em seu lugar, aparecer um filhote de cervo.



Desesperada, a princesa chorou copiosamente, pois não ouviria mais a voz de seu irmãozinho e tampouco sabia como agir. O pequeno cervo parecia ainda compreender o que ela dizia, embora ele mesmo não fosse mais capaz de falar. Consolava-a esfregando seu focinho úmido no rosto da irmã. Outra preocupação surgia no coração da menina: o que seu irmãozinho, agora metamorfoseado, comeria? Onde dormiria? Como se comunicariam?

Com o decorrer do tempo, resignou-se à nova situação, mas sua preocupação pelo irmão aumentou. O animalzinho crescia vivacíssimo, mas, às vezes, fugia de casa, lançando-se em loucas carreiras pelo bosque e à pobre Maninha restava apenas esperar que ele voltasse. Que sofrimento aquelas horas de completa solidão! Que medo sentia ao pensar nos novos perigos, para ela desconhecidos, a que seu irmãozinho estava exposto. E se um dia ele não voltasse mais? E se uma fera o atacasse? E se o devorasse? Angustiada, punha-se a chorar e chorar. Se ao menos tivesse alguém para confiar suas penas, que a confortasse... mas estava completamente sozinha.

MANINHO E MANINHA - PARTE 1

"Maninho e Maninha" ou "Irmãozinho e Irmãzinha" ("Brüderchen und Schwesterchen") é um conto escrito pelos irmãos Grimm e faz parte da coletânea "Contos de Grimm" (Alemanha, 1812).

No Brasil, fez parte da coleção "Jóias da literatura infantil" (Livraria Martins Editôra, circa 1961) com tradução e adaptação de Jacob Penteado. É baseada nessa versão que estou adaptando essa história.




OS DOIS ORFÃOZINHOS

Era uma vez, à beira de um velho bosque, um maravilhoso castelo, circundado por um enorme jardim, onde havia lagos artificiais cheios de peixinhos coloridos, flores perfumadas e um balanço de ouro onde, desde a manhã até a noite, brincavam duas lindas crianças: a princesa Áurea (assim chamada por causa de seus cabelos dourados) e seu irmãozinho, o príncipe Florindo (uma criança de rosto tão belo e delicado quanto uma flor). Maninho e Maninha, como eram conhecidos, viviam felizes com seus pais, o Rei e a Rainha.

Um dia, uma velha Bruxa penetrou no castelo e se escondeu na chaminé da lareira. Quando não havia ninguém por perto, saiu sorrateiramente de seu esconderijo e matou a Rainha, sufocando-a. Ninguém soube o motivo da morte repentina da jovem soberana e, por três anos, três meses e três dias, o Rei chorou, as crianças não brincaram e as janelas do castelo ficaram cobertas por cortinas negras, em sinal de luto. Um dia, vendo a tristeza de seus filhos, o Rei mandou que as cortinas fossem retiradas e mandou as crianças ao jardim para brincar.

Notando um início de alegria na mansão, a Bruxa (que havia passado todo aquele tempo escondida, deliciada com o infortúnio daquela família) saiu para buscar sua filha, Maligna, no Reino do Mal, e ambas, disfarçadas com vestidos maravilhosos, apresentaram-se ao Rei. Este, ingênuo e atarefado com os afazeres do governo, procurando uma nova mãe para seus filhos, acreditou que a Bruxa seria a melhor candidata para tal e a desposou. A partir de então, Maninho e Maninha passaram a sofrer com os desaforos da nova irmã e com os castigos injustos da madrasta. O Rei nada percebia porque a Bruxa, todas as noites, dava-lhe um chá "calmante para a tosse", que, na verdade, era um veneno que o matou em pouco tempo.

Assim que o Rei morreu, a Bruxa fez os dois irmãozinhos vestirem roupas velhas e remendadas e ordenou a um servo que os abandonasse no bosque. Este, chorando, suplicou-lhe que não o obrigasse a fazer semelhante coisa. A Bruxa, então, desembainhou uma espada que estava pendurada na parede e decepou-lhe a cabeça. Chamou outro servo, mostrou-lhe o que acontecera ao primeiro e deu a mesma ordem. Este, impassível, negou a tarefa e foi morto da mesma forma que o outro. A Bruxa chamou um terceiro servo e deu a mesma ordem.

Este, jovem e astuto, concordou em levar as crianças para o bosque naquela mesma noite. Saindo da presença da Bruxa e sem dizer nada a ninguém, embrenhou-se no bosque, no ponto mais distante do castelo e, rapidamente, construiu uma choupana e colocou ali duas caminhas. Retornou ao castelo e encheu uma sacola com mantimentos gostosos. Quando anoiteceu, o fiel servo levou as crianças para a choupana, explicou-lhes o ocorrido e foi embora, prometendo voltar para visitá-los quando pudesse.