A ÁGUA ENFEITIÇADA
No dia seguinte, assim que soube que seus enteados haviam sido abandonados à própria sorte, a Bruxa jogou um líquido escuro num riacho e proferiu algumas palavras obscuras, enfeitiçando, dessa forma, todas as águas que corriam pelo bosque. Enquanto a pérfida madrasta descansava sossegada no castelo, as crianças já haviam acordado na choupana e estavam vagando em busca de lenha e água. Seu casebre ficava longe de qualquer fonte de água, então os irmãos já estavam com muita sede quando finalmente encontraram um córrego. Ao debruçar-se para beber, ouviram uma voz que cantava: "Não beba desta água que, outrora, límpida e pura, agora está enfeitiçada e só trará desventura".
Áurea, ao ouvir tais palavras, puxou Florindo, impedindo-o de beber. Continuaram andando até encontrar outro regato. Animadas, as crianças correram a se debruçar sobre a água, quando, novamente, ouviram: "Não beba desta água que, outrora, límpida e pura, agora está enfeitiçada e só trará desventura". E assim foi; a cada cascata, rio, ribeiro, fonte ou nascente que encontravam, ouviam o mesmo verso. Só restou às pobres crianças a resignação de terem de sofrer com a sede. Os dias foram passando e as crianças aliviavam a sede com mirtilos, morangos e outras frutinhas silvestres; seus mantimentos estavam no fim, e o bom servo ainda não havia retornado, como prometera.
Certa noite, quando há muito sua comida já havia acabado e os dois irmãos só ainda não haviam morrido de fome graças às frutinhas que encontravam no bosque, ouviram um bater à porta. Era o fiel servo, carregado de provisões. "Eu trouxe tudo que pude carregar, mas receio que essa tenha sido a última vez que pude vir aqui. A Bruxa desconfia de que ainda estão vivos, e temo que mande alguém me vigiar." De fato, aquela foi a última vez que o viram. Quem sabe o que terá acontecido a ele? Talvez tenha sido mantido prisioneiro pela madrasta; talvez tenha sido morto.
Alguns dias depois, no campo de mirtilos, enquanto Maninha estava entretida em tecer uma cestinha para guardar as frutas silvestres, ouviu a voz que prevenia: "A desventura cairá em breve sobre aquele que beber desta água leve". Assustada, saiu correndo em busca de seu irmãozinho, mas já era tarde. O ainda muito jovem principezinho não soube resistir à tentação e sorvera daquela água cristalina. Áurea chegou em tempo de ver seu irmãozinho sumir e, em seu lugar, aparecer um filhote de cervo.
Desesperada, a princesa chorou copiosamente, pois não ouviria mais a voz de seu irmãozinho e tampouco sabia como agir. O pequeno cervo parecia ainda compreender o que ela dizia, embora ele mesmo não fosse mais capaz de falar. Consolava-a esfregando seu focinho úmido no rosto da irmã. Outra preocupação surgia no coração da menina: o que seu irmãozinho, agora metamorfoseado, comeria? Onde dormiria? Como se comunicariam?
Com o decorrer do tempo, resignou-se à nova situação, mas sua preocupação pelo irmão aumentou. O animalzinho crescia vivacíssimo, mas, às vezes, fugia de casa, lançando-se em loucas carreiras pelo bosque e à pobre Maninha restava apenas esperar que ele voltasse. Que sofrimento aquelas horas de completa solidão! Que medo sentia ao pensar nos novos perigos, para ela desconhecidos, a que seu irmãozinho estava exposto. E se um dia ele não voltasse mais? E se uma fera o atacasse? E se o devorasse? Angustiada, punha-se a chorar e chorar. Se ao menos tivesse alguém para confiar suas penas, que a confortasse... mas estava completamente sozinha.


